Eletroestimulação no paciente em UTI
Prevenção de atrofia e ICU-acquired weakness: protocolos seguros à beira do leito.
O paciente crítico perde massa e força muscular em uma velocidade que assusta: até 2% de massa muscular por dia nas primeiras semanas de internação. A fraqueza adquirida na UTI (ICU-acquired weakness, ICU-AW) atinge boa parte dos pacientes ventilados e prolonga o desmame, a internação e a reabilitação.
A eletroestimulação neuromuscular (NMES) entra como uma ferramenta que não depende da colaboração do paciente sedado ou delirante: ela gera contração muscular à beira do leito quando a mobilização ativa ainda não é possível. Esta aula posiciona a NMES na UTI de forma honesta, com o que a evidência recente sustenta.
Os 3 alvos da NMES no paciente crítico
Não é fortalecimento, é preservação
Prevenir a atrofia
A contração eletroinduzida mantém a síntese proteica e reduz a proteólise por desuso, atenuando a perda de área de secção transversa do quadríceps mensurada por ultrassom.
Reduzir a incidência de ICU-AW
Ao preservar unidades motoras funcionais, a NMES reduz a chance de o paciente evoluir com fraqueza generalizada difusa detectável ao teste MRC.
Acelerar a transição para a reabilitação ativa
Músculo preservado significa menos tempo até sentar, ortostatismo e marcha. A NMES é ponte para a mobilização, não substituta dela.
O que a meta-análise mostra - NMES no paciente crítico
Nakanishi et al., 2023 - revisão sistemática atualizada de ECRs
| Desfecho | Resultado agrupado |
|---|---|
| Ocorrência de ICU-AW | Redução (6 ECRs; RR 0,48; IC95% 0,32-0,72) |
| Variação de massa muscular | Menor perda com NMES (4 ECRs; DM -10,01; IC95% -15,54 a -4,48) |
| Força muscular | Aumento (6 ECRs; DMP 0,43; IC95% 0,19-0,68) |
| Sensação de picada / desconforto | Sem efeito claro (8 ECRs; RR 6,87; IC95% 0,84-56,50) |
| Tempo de internação na UTI | Pouca ou nenhuma diferença consistente |
Certeza da evidência avaliada por GRADE. NMES reduz ICU-AW, mas seu efeito sobre mortalidade e qualidade de vida permanece incerto.
Caso clínico
Exemplo prático - NMES de quadríceps à beira do leito
Paciente ventilado, sedado, D3 de UTI, sem contração voluntária avaliável, com fatores de risco para ICU-AW (sepse, corticoide, bloqueio neuromuscular prévio).
Objetivo: preservar massa e força do quadríceps na fase em que a mobilização ativa ainda não é viável.
Conduta eletroterapêutica
Preservação muscular passiva
NMES bilateral de quadrícepsNível 1a35-50 Hz · 300-400 µs · 10-12s ON / 20-30s OFF · rampa 2s · intensidade para contração visível/palpável · 30-60 min/dia
Transição para ativo
Mobilização precoce progressivaAssim que o paciente puder colaborar: cicloergômetro de leito, sedestação, ortostatismo
